Morre Netinho: da explosão de “Milla” à luta contra o câncer – a história completa por trás do ícone da axé music
Entre hits históricos, problemas graves de saúde e uma despedida discreta, a trajetória de Netinho revela não só o poder da axé music, mas também o preço oculto da fama e das disputas políticas em torno de um dos rostos mais marcantes dos anos 90.
Netinho morreu na manhã de 13 de outubro de 2026, aos 60 anos, em Salvador, longe dos trios elétricos e dos carnavais que o consagraram como um dos principais rostos da axé music brasileira. A informação, confirmada por sua equipe, encerra uma trajetória marcada por grandes hits, graves problemas de saúde e uma despedida discreta, bem distante do clima de festa com o qual o país se acostumou a associar seu nome.
A causa da morte foi insuficiência renal e falência múltipla de órgãos, decorrentes de um linfoma não Hodgkin do tipo B, um tipo de câncer que compromete o sistema linfático. Nos últimos dias, o cantor estava internado em um hospital de Salvador e, no fim de setembro, já havia anunciado que se afastaria das redes sociais para se dedicar integralmente ao tratamento — um gesto que hoje soa como uma espécie de adeus antecipado.
Em nota, a equipe de Netinho o descreveu como um artista “extraordinário, talentoso, sensível e inovador” e afirmou que ele “partiu tranquilo”. Segundo o comunicado, nos últimos meses de vida, ele repetia que partiria feliz e realizado, porque a vida lhe tinha dado mais do que sonhara, e que levaria consigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a sua arte. Atendendo ao seu desejo, velório e cremação foram restritos à família e amigos, com um pedido claro de respeito à privacidade.
Nascido em 1966 em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, Netinho enfrentou um trauma ainda na infância: perdeu o pai aos 9 anos de idade e, pouco depois, mudou-se com a família para Salvador. Foi na capital baiana que começou a se aproximar da música, por volta dos 14 anos, interpretando canções de MPB e bossa nova em colégios e teatros, ao mesmo tempo em que cursava Engenharia Civil na Universidade Católica de Salvador.
A aproximação com o carnaval veio em 1986, quando ele se apresentou como folião no Bloco Beijo. Dois anos mais tarde, a relação com o grupo se intensificou: com a saída de Luiz Caldas, Netinho assumiu o posto de um dos vocalistas da recém-criada Banda Beijo. Foi ali que sua voz começou a ecoar para além das fronteiras da Bahia, embalando sucessos como “Beijo na Boca”, que se tornaram trilha sonora de verões e carnavais pelo país.
Entre o fim dos anos 1980 e o começo dos anos 1990, a Banda Beijo puxou trio elétrico até na Itália, durante uma Copa do Mundo, marcando a internacionalização da axé music. Nesse período, o grupo lançou discos como “Badameiro” e “Aconteceu Axé Music”, este último um posicionamento explícito em defesa do movimento, em resposta às críticas de um jornalista baiano. Vieram ainda músicas como “A Vida é Festa”, “Estrela Primeira” e “Barracos”, que misturavam clima de celebração com referências às periferias e à realidade social brasileira.
Pouco depois, Netinho decidiu seguir carreira solo. Em 1993, a convite da gravadora Polygram, lançou o álbum “Um Beijo para Você”, emplacando a música “Menina” na trilha sonora da novela “Tropicaliente”, da TV Globo. O sucesso abriu portas para novos trabalhos, entre eles o disco “Netinho”, gravado parcialmente nos Estados Unidos, com participação de nomes como Sandra de Sá, Renato Borghetti e ex-integrantes da banda EARTH, WIND AND FIRE (ÂRTH UÍND ÄND FÁIR). O álbum rendeu ao cantor seu terceiro disco de platina.
O ponto de inflexão na carreira solo veio em 1996, com o lançamento do álbum ao vivo “Netinho ao Vivo!”. Nesse trabalho, ele regravou “Milla”, originalmente da banda Jheremmias Não Bate Córner, que mais tarde daria origem ao Jammil e Uma Noites. A nova versão explodiu em rádios, festas, carnavais e programas de TV, quebrando recordes de execução e se consolidando como um dos maiores hinos da axé music. “Milla” atravessou fronteiras, ganhou versões em outros idiomas e se fixou como uma das músicas mais emblemáticas dos anos 90 no Brasil.
Após uma década em alta rotação, com discos, turnês, viagens internacionais e presença constante em programas de televisão, Netinho decidiu se afastar da música em 2003, mantendo apenas a participação em um trio elétrico que o levou novamente a Portugal. Nessa fase, ele gravou o álbum “Zuêra”, com releituras de clássicos da MPB, em parceria com a Universal Music. O trabalho, porém, nunca chegou ao público: o cantor rompeu com a gravadora e o disco acabou engavetado.
Nos anos seguintes, vieram novos projetos, como o álbum “Minha Praia” e, mais tarde, o trabalho “Outra Versão”, em que se aventurou por sonoridades mais pop e eletrônicas. Ao mesmo tempo, Netinho começou a enfrentar um dos períodos mais difíceis de sua vida. Em um intervalo de apenas uma semana, sofreu três AVCs, perdendo todos os movimentos do corpo, a memória recente e a voz. Foram seis meses de internação em Salvador, seguidos de transferência para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em um processo longo e complexo de reabilitação.
Mesmo com tonturas e limitações físicas importantes, ele voltou a se apresentar no carnaval seguinte, desta vez no Rio de Janeiro, insistindo na retomada dos palcos. A partir de 2016, depois de nova internação prolongada, passou a realizar exames frequentes e a adotar um acompanhamento médico mais rigoroso. Em um determinado momento, decidiu deixar de puxar trio em Salvador, embora continuasse gravando e realizando shows pontuais em outras cidades.
A partir de 2020, a trajetória pública de Netinho passou a incluir um componente político mais evidente. Ele fundou a associação Aliados Brasil Conservador, voltada à produção de conteúdo em apoio ao então presidente Jair Bolsonaro, e participou de lives e entrevistas nesse contexto. Em uma dessas aparições, em conversa com Eduardo Bolsonaro, fez declarações polêmicas sobre a comunidade LGBTQIA+, mesmo já tendo se declarado bissexual em 2010, o que gerou críticas e controvérsia entre fãs e militantes.
Dois anos mais tarde, Netinho se filiou ao Partido Liberal (PL), o mesmo de figuras centrais do bolsonarismo, e lançou sua pré-candidatura a deputado federal pela Bahia, adotando slogans como “Deus, Pátria, Família e Liberdade” e se definindo como um “soldado” do ex-presidente. Esse posicionamento político dividiu parte do público que o acompanhava desde os tempos de “Milla” e adicionou uma camada de disputa simbólica em torno da sua imagem.
Após o auge dessas tensões, especialmente no ciclo eleitoral, o cantor reduziu as manifestações explícitas sobre política e voltou a concentrar energia na carreira musical. Montou uma nova banda, criou o show “Ressureição” como símbolo de seu retorno definitivo aos palcos e participou de apresentações de virada de ano em estados como Paraíba e Rio Grande do Norte.
Em 2025, depois de cancelar shows de carnaval e se internar novamente em Salvador, Netinho recebeu o diagnóstico de linfoma não Hodgkin do tipo B. Iniciou, então, um tratamento intensivo, ainda tentando manter algumas apresentações isoladas – entre elas, um show em Natal, em janeiro de 2026, que, mais tarde, seria lembrado como sua despedida oficial dos palcos.
Os meses seguintes foram marcados pelo avanço da doença e pela intensificação do tratamento. O anúncio de afastamento das redes, feito no fim de setembro de 2026, tornou-se o último recado direto ao público. Pouco tempo depois, a notícia de sua morte confirmou que aquele silêncio era, de fato, o capítulo final de uma trajetória intensa.
Netinho deixou uma filha, Bruna, e uma obra que permanece viva na memória de quem atravessou os anos 90 embalado por sua voz. Do menino do Recôncavo Baiano ao ídolo da axé music, do corpo testado ao limite pelos palcos e internações à figura politicamente controversa de seus últimos anos, sua história ajuda a entender não apenas um artista, mas uma época inteira da cultura brasileira.
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