Rui Resende, muito mais que um lobisomem na TV, morre aos 88 anos no Rio
- CanalNBS
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Ator de “Roque Santeiro” vivia no Retiro dos Artistas desde 2019 e deixa trajetória marcante no teatro, na televisão e no cinema brasileiro
O ator Rui Resende, conhecido do grande público como o professor Astromar Junqueira – o lendário “lobisomem” de Roque Santeiro –, morreu neste domingo (12), aos 88 anos, no Rio de Janeiro. Ele estava internado no Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca, e vivia desde 2019 no Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá, zona oeste da cidade.
A notícia de sua morte foi confirmada pela direção do Retiro e por familiares. De acordo com as informações divulgadas, o ator tratava problemas de saúde relacionados à idade avançada. Detalhes sobre a causa exata da morte e o local do velório não haviam sido divulgados até o fechamento deste texto.
Nascido em Minas Gerais, Rui Resende construiu uma carreira longa e sólida, que começou no rádio e se espalhou pelo teatro, pelo cinema e pela televisão. Antes de se tornar o “lobisomem” mais famoso da TV brasileira, ele já havia acumulado décadas de experiência em palcos e estúdios, interpretando tipos populares, homens simples, professores, trabalhadores e figuras do interior que ajudaram a compor o retrato do Brasil nas artes cênicas.
Na televisão, participou de produções marcantes em diferentes emissoras. Na Globo, integrou o elenco de novelas, séries e programas que atravessaram gerações. Em Roque Santeiro, exibida originalmente em 1985, deu vida ao professor Astromar Junqueira, personagem que acreditava ser um lobisomem e que se tornou um ícone da cultura pop nacional. A interpretação de Rui trouxe humanidade, humor e melancolia à figura, evitando a caricatura fácil e transformando o personagem em símbolo de um Brasil dividido entre fé, superstição e racionalidade.
Rui também esteve em programas como Você Decide, A Grande Família, Carga Pesada e em produções de outras emissoras, incluindo novelas e minisséries da extinta TV Manchete. Em cada participação, mesmo quando o papel era pequeno, deixava marcas de verossimilhança e naturalidade, características que o tornaram um rosto familiar ao público, ainda que nem sempre lembrado pelo nome.
No teatro, atuou em montagens que acompanharam as transformações da dramaturgia brasileira ao longo da segunda metade do século XX. Passou por companhias importantes, experimentou textos clássicos e contemporâneos e ajudou a popularizar peças que discutiam o país em cena. Para além do sucesso televisivo, colegas de profissão lembram que Rui era um homem de palco, disciplinado, pontual e profundamente comprometido com o ofício.
O cinema também faz parte de sua trajetória. Rui Resende participou de filmes que hoje ocupam lugar de destaque na história do audiovisual brasileiro, interpretando personagens que reforçavam sua vocação para representar o “brasileiro comum” – figuras que poderiam ser encontradas em qualquer cidade do interior ou bairro de grande metrópole. Esse trânsito entre teatro, TV e cinema consolidou seu nome como um trabalhador incansável da arte.
Nos últimos anos, já afastado da rotina intensa de gravações, Rui encontrava no Retiro dos Artistas um espaço de convivência com colegas de profissão e de preservação de memórias. A instituição, que abriga artistas que marcaram diferentes fases da cultura nacional, foi o cenário de seus últimos capítulos de vida. Ali, ele era lembrado não só pelo lobisomem de Roque Santeiro, mas pelo companheiro de bastidores, pelas histórias de sets antigos e pela generosidade com os mais jovens.
Mesmo na maturidade, continuou aparecendo em produções de TV e streaming. Entre seus trabalhos recentes está a série Bom Dia, Verônica, em que interpretou o personagem Seu Tomé, reforçando a capacidade de se adaptar a novas linguagens e formatos sem perder a essência de intérprete atento, detalhista e profundamente humano.
A morte de Rui Resende reabre a discussão sobre o papel dos grandes coadjuvantes na dramaturgia brasileira. Visto por analistas e especialistas, ele representa uma geração de atores que, sem ocupar sempre o centro do cartaz, foram fundamentais para dar consistência às narrativas e credibilidade às histórias contadas na TV, no teatro e no cinema.
Para milhões de brasileiros, ele será sempre o lobisomem de Roque Santeiro. Mas seu legado vai muito além disso: Rui Resende ajudou a construir, com discrição e firmeza, a memória afetiva de um país que se reconheceu, muitas vezes, nos personagens que ele interpretou.


