VERDADE, MEMÓRIA E POLÍTICA: A novela jurídica que volta a rondar Mauá
- CanalNBS

- há 2 dias
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Entre silêncio nas redes e processos na Justiça, cenário reacende debate sobre elegibilidade

Em política, a memória coletiva costuma ser curta. Mas em tempos de redes sociais, arquivos digitais e circulação rápida de informação, fatos do passado frequentemente voltam à tona — muitas vezes no momento mais delicado para quem busca novos projetos eleitorais.
É nesse contexto que volta ao debate público a situação jurídica do deputado estadual Átila Jacomussi (União Brasil), personagem central de uma longa e complexa narrativa política em Mauá.
A política do silêncio
Nos últimos meses, o parlamentar tem sido visto em feiras, ruas e eventos da cidade, em agendas que lembram claramente movimentos de pré-campanha. Fotos, cumprimentos e conversas com moradores fazem parte do roteiro comum de quem se prepara para uma nova disputa eleitoral.
Mas um detalhe chama atenção de observadores políticos locais: nas redes sociais do deputado, praticamente não há manifestações públicas sobre os processos judiciais que envolvem seu nome.
Em um ambiente político cada vez mais marcado pela cobrança por transparência, o silêncio acaba se tornando também uma estratégia — ainda que arriscada.
Afinal, como dizem analistas políticos, o bom político não é apenas aquele que aparece nas ruas, mas o que também responde às perguntas que surgem sobre sua trajetória.
O novo cenário jurídico eleitoral
O debate sobre elegibilidade ganhou um novo capítulo com mudanças aprovadas na legislação eleitoral.
Em 2025, o Tribunal Superior Eleitoral criou o Requerimento de Declaração de Elegibilidade (RDE).
O instrumento permite que pré-candidatos consultem previamente a Justiça Eleitoral para saber se estão aptos ou não a disputar uma eleição.
Na prática, especialistas afirmam que a medida pode reduzir um problema recorrente no Brasil: candidaturas registradas mesmo diante de questionamentos judiciais, que acabam sendo decididos apenas durante ou após a eleição.
Com o RDE, o cenário tende a mudar.
Em outras palavras: dúvidas sobre elegibilidade podem ser esclarecidas antes mesmo da campanha começar.
O processo ligado à Operação Prato Feito
No caso de Átila Jacomussi, um dos episódios que seguem gerando repercussão é o relacionado à Operação Prato Feito, investigação da Polícia Federal que apurou suspeitas de irregularidades em contratos da área da educação em diversos municípios paulistas.
Segundo reportagem do jornal Diário do Grande ABC, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo negou recentemente um pedido da defesa do deputado para suspender uma ação penal relacionada ao caso.
A investigação remonta a 2018, quando Jacomussi era prefeito de Mauá. Na ocasião, ele chegou a ser preso duas vezes durante as fases da operação.
De acordo com os autos, a Polícia Federal encontrou oitenta e sete mil reais em espécie, cuja origem não estava registrada no momento da apreensão.
A defesa do parlamentar sustenta que ele jamais praticou qualquer ato ilícito, e afirma que um procedimento cível relacionado aos fatos foi arquivado. Os advogados também argumentaram que o caso deveria ser analisado em instância superior por conta do foro por prerrogativa de função.
A desembargadora Maria Cláudia Bedotti reconheceu esse entendimento e determinou que o processo seja analisado pela segunda instância.
Especialistas ouvidos pelo Diário afirmam que, caso haja condenação por órgão colegiado, poderia surgir hipótese de inelegibilidade com base na Lei da Ficha Limpa.
Dificuldades políticas recentes
Os desafios jurídicos já apareceram no último ciclo eleitoral.
Durante a disputa pela prefeitura de Mauá em 2024, contra o atual prefeito Marcelo Oliveira, Jacomussi enfrentou questionamentos relacionados à rejeição de contas municipais do período em que governou a cidade entre 2017 e 2020.
A Justiça Eleitoral chegou a indeferir seu registro de candidatura inicialmente, embora o processo tenha tido desdobramentos posteriores.
O episódio mostrou que o campo jurídico continua sendo uma variável central na carreira política do deputado.
A pressão dentro do próprio partido
Outro fator que começa a pesar é o ambiente partidário.
Nos bastidores, interlocutores apontam que o União Brasil avalia com cautela os próximos passos políticos em Mauá, principalmente diante de um cenário judicial ainda indefinido.
Se confirmadas essas resistências internas, Jacomussi poderia enfrentar dificuldade até mesmo para garantir legenda em uma eventual nova candidatura.
Nesse caso, restaria a alternativa comum no sistema político brasileiro: a busca por abrigo em outras siglas.
Mas partidos costumam evitar riscos jurídicos elevados em ano eleitoral.
Mauá já viu esse filme antes
A história política da cidade mostra que trajetórias podem mudar rapidamente.
O ex-prefeito Diniz Lopes viveu forte protagonismo nos anos 2000, chegou a ocupar a prefeitura e teve passagem pela Assembleia Legislativa. Anos depois, enfrentou derrotas sucessivas nas urnas e acabou ficando fora do centro do poder político local.
Algo semelhante ocorreu com Donisete Braga, que governou a cidade, mas após derrotas eleitorais seguidas anunciou afastamento das disputas.
Outro exemplo é o da ex-deputada Vanessa Damo, que também enfrentou episódios de questionamento jurídico sobre sua elegibilidade ao longo da carreira.
Cada um desses casos mostra uma lição recorrente da política: processos judiciais e decisões eleitorais podem redefinir completamente o futuro de lideranças locais.
Um espaço aberto no cenário político?
Diante desse histórico, analistas avaliam que Mauá pode estar caminhando para um novo ciclo.
Nas últimas eleições municipais, o número de votos nulos, brancos e abstenções superou a votação do candidato vencedor, sinal de um eleitorado cada vez mais desconectado das lideranças tradicionais.
Esse dado abre espaço para uma pergunta que começa a circular entre observadores políticos:
Será que a cidade está diante da oportunidade de uma terceira via real, capaz de renovar o debate político local?
A verdade e o tempo da política
Na política, a verdade costuma ter um ritmo próprio.
Processos judiciais levam tempo, eleições mudam cenários e a opinião pública se transforma.
Mas uma coisa permanece constante: a história sempre volta para cobrar explicações.
E em Mauá, como mostram os acontecimentos recentes, essa cobrança parece estar apenas começando.






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