Xuxa e o último voo da nave: quando a infância virou despedida
- CanalNBS

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No show “O Último Voo da Nave”, iniciado em São Paulo e com passagem marcada por Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, uma geração inteira revê a rainha dos baixinhos ao vivo — e descobre que não está se despedindo só de um programa infantil, mas de uma época do Brasil.
Em 25 de julho de 2026, o Nubank Parque, em São Paulo, deixou de ser apenas uma arena multiuso para se transformar em uma máquina de viagem no tempo. No palco, Xuxa Meneghel voltava a entrar em cena como nos anos 80 e 90: nave descendo, luzes coloridas, gritos e lágrimas. Mas, dessa vez, com um detalhe diferente e definitivo. O show, batizado de “O Último Voo da Nave”, não é só mais um espetáculo. É uma despedida anunciada da estética que marcou as manhãs infantis da TV brasileira.
Cerca de 50 mil pessoas se reuniram para ver a nave voltar ao palco. A maioria não era mais formada por crianças: eram adultos entre 35 e 50 anos, muitos deles pais, mães, avós, que cresceram acordando cedo para esperar a nave pousar. Eles agora ocupam as arquibancadas com celulares na mão, registrando o que, para muitos, é um encontro tardio com a própria infância.
A turnê, que ainda passará por Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, carrega um peso simbólico forte. Oficialmente, é um adeus aos palcos infantis. Na prática, é também um ritual de encerramento de ciclo para uma geração inteira. Ao rever Xuxa cantando clássicos como “Ilariê”, o público não está só celebrando nostalgia. Está revisitando um tempo em que a infância parecia concentrada numa faixa horária da TV aberta, em que uma apresentadora era capaz de falar com milhões de crianças ao mesmo tempo, pelo mesmo canal.
Vista por analistas e especialistas, essa despedida acontece num momento em que o entretenimento infantil se deslocou quase completamente para as telas dos celulares. As manhãs com programação direcionada às crianças perderam espaço, enquanto vídeos sob demanda, plataformas digitais e influenciadores mirins assumem o protagonismo. O contraste é bruto: de um lado, o ritual coletivo; de outro, a experiência fragmentada, individual, de cada criança dentro do seu próprio algoritmo.
Por trás dos holofotes, o último voo da nave também revela outra camada da história. Durante décadas, Xuxa foi ao mesmo tempo a mulher mais amada e uma das mais controladas do país. O que se apresentava como sucesso absoluto escondia bastidores de solidão, contratos duros e pouca liberdade sobre a própria imagem. Ao subir agora ao palco com mais maturidade e discurso aberto sobre erros e cicatrizes, a apresentadora faz não apenas um aceno aos “baixinhos” crescidos, mas um gesto de libertação em relação à personagem que a consagrou — e, por muito tempo, a aprisionou.
Para quem esteve presente no Nubank Parque ou ainda vai assistir aos próximos shows da turnê, a sensação descrita em muitos relatos é de “velório feliz” ou “casamento de gerações”. Pais levam filhos para apresentar “a pessoa que marcou a minha infância”. Filhos começam a entender que aquele rosto, aquelas músicas e aquela nave não são apenas um meme ou um vídeo antigo – são parte viva da história afetiva de quem os criou.
A nave que desce hoje num palco de alta tecnologia, cercada por telões e iluminação digital, não é a mesma nave dos estúdios de TV dos anos 90. Mas o significado permanece: ela continua sendo um símbolo de passagem entre mundos — o mundo onde a infância era compartilhada pelo país inteiro e o mundo em que, pela primeira vez, essa infância se reconhece como memória.
Ao final da turnê, quando a nave finalmente deixar de ser espetáculo ao vivo e passar a existir apenas em registros e lembranças, a despedida terá se consolidado em três dimensões: a despedida da Xuxa dos palcos infantis, a despedida de uma geração do seu próprio passado e a despedida de um formato de televisão que dificilmente voltará a existir.
No canal NBS Legados, este vídeo-documentário acompanha em detalhes esse processo: o impacto da turnê, as diferenças entre a infância de ontem e de hoje, e o legado invisível que a rainha dos baixinhos deixou para quem aprendeu a ser criança diante da televisão.




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