Banco ligado a Edir Macedo é alvo de investigações por rombo bilionário e manobras com “carteiras podres”
- CanalNBS

- há 1 dia
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Relatórios apontam ocultação de prejuízos, uso de fundos próprios para absorver créditos em atraso e possível patrimônio líquido negativo de até R$ 8,5 bilhões, enquanto venda da carteira ao BTG Pactual depende de aval do Banco Central e do FGC.
O Banco Digimais, ligado ao bispo Edir Macedo, passou a ocupar o centro de uma crise que mistura mercado financeiro, órgãos de controle e forte repercussão política. A instituição é alvo de investigações da Polícia Federal e de questionamentos na esfera cível por suspeita de manobras contábeis e ocultação de prejuízos, envolvendo principalmente carteiras de crédito de alta inadimplência.
De acordo com relatórios de auditoria, o Digimais teria transferido carteiras consideradas “podres” – em grande parte compostas por financiamentos de veículos com atraso elevado – para fundos de investimento. O ponto sensível está no fato de que o próprio banco seria cotista majoritário desses fundos. Na prática, créditos problemáticos saíam do balanço direto do banco, melhorando artificialmente os resultados, mas continuavam dentro do mesmo grupo econômico.
Os documentos apontam que a manobra teria permitido esconder cerca de R$ 480 milhões em créditos vencidos, enquanto o banco ainda registrava lucro em suas demonstrações financeiras. Auditorias independentes, porém, passaram a indicar uma realidade bem mais grave, com projeções de patrimônio líquido negativo que poderia chegar à casa de R$ 8,5 bilhões, somando exposição em créditos e investimentos em fundos.
Outro ponto levantado pelos auditores foi a dificuldade em rastrear cerca de R$ 3 bilhões em aplicações feitas pelo Digimais em diferentes fundos. Em alguns desses veículos, mais da metade dos créditos teria inadimplência elevada, o que aumentaria significativamente o risco das operações. Em paralelo, uma holding ligada a Edir Macedo teria investido valores expressivos em fundos lastreados em precatórios antigos, de uma ação contra a União iniciada na década de 1990, classificados como de alto risco e liquidez incerta.
Enquanto esse quadro se desenhava nos bastidores, o banco continuava captando recursos do público por meio de CDBs com taxas acima de 120% do CDI, oferecendo retornos atrativos para investidores de varejo. Em caso de quebra, estimativas apontam que a conta a ser suportada pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) poderia se aproximar de R$ 8 bilhões, o que gerou preocupação entre reguladores e participantes do mercado quanto ao impacto sistêmico de uma eventual insolvência.
No campo judicial, o Digimais também enfrenta uma ação movida por um ex-sócio, que cobra quase R$ 500 milhões sob a alegação de prejuízos em um fundo estruturado com papéis ligados a instituições posteriormente investigadas e, em alguns casos, liquidadas, como Banco Master, Reag e Fictor. O banco contesta as acusações e afirma que o próprio sócio teria retido rendimentos e descumprido obrigações contratuais, o que levou o conflito aos tribunais.
Diante do agravamento da situação, o Digimais assinou documentos para a venda de sua carteira de clientes ao BTG Pactual. A operação, contudo, depende de aprovação do Banco Central, da modelagem de um leilão competitivo e da participação do FGC na estrutura de suporte. A expectativa é de que a transação permita uma espécie de “aterrissagem controlada” da instituição, preservando correntistas e evitando um efeito dominó entre bancos de médio porte.
O caso passa a ser acompanhado de perto por autoridades de supervisão, investidores e atores políticos em Brasília, em razão da ligação do banco com um dos principais líderes religiosos do país. A forma como o episódio será conduzido – com responsabilizações, mudanças regulatórias ou acordos discretos – tende a se tornar um teste para a robustez da supervisão financeira e para a capacidade do sistema de separar interesses econômicos de influências religiosas e políticas.




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