CPMI do INSS mira Lulinha e reacende debate sobre filhos de presidentes no poder
- CanalNBS

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Quebra de sigilo bancário e fiscal do filho de Lula é comparada às investigações de rachadinha envolvendo herdeiros de Bolsonaro e expõe o custo político dos “clãs familiares” em ano eleitoral
A decisão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS de aprovar a quebra de sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, reacendeu em Brasília um debate conhecido, mas politicamente explosivo: o papel dos filhos de presidentes no centro de escândalos e disputas de poder.
O caso atual envolve a apuração de um esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Segundo as investigações, valores teriam sido retirados dos benefícios, muitas vezes sem autorização clara dos segurados, e repassados a intermediários e, em tese, a servidores do próprio instituto.
O nome de Lulinha surge nesse contexto associado a Antônio Camilo Antunes, apontado como um dos operadores do esquema. Em depoimento à Polícia Federal, o ex-funcionário Edson Claro afirmou que o filho do presidente receberia uma “mesada” de R$ 300 mil. O mesmo valor aparece em mensagens trocadas entre Antunes e a empresária Roberta Luchsinger, nas quais ele menciona a necessidade de repassar a quantia ao “filho do rapaz” — expressão interpretada como referência a Fábio Luís.
Até o momento, Lulinha não é alvo formal da Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal. Contudo, sua citação em depoimentos e conversas, somada à decisão da CPMI, eleva o grau de exposição política e jurídica do caso. O relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar, foi o autor do requerimento que pediu a quebra de sigilo, aprovado mesmo com a base governista detendo maioria no colegiado.
Com a medida, deputados e senadores passarão a ter acesso a extratos bancários, movimentações financeiras, declarações de Imposto de Renda e contratos em nome de Lulinha. O objetivo é verificar se há entradas recorrentes que possam ser compatíveis com os valores mencionados nas investigações. Outro familiar do presidente também aparece no radar da CPMI: Frei Chico, ligado ao Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), entidade cujo volume de repasses do INSS teria crescido 564% entre 2020 e 2024.
A decisão da CPMI ocorre em pleno ano eleitoral e reabre uma comparação inevitável com o governo anterior. Durante a gestão Jair Bolsonaro, denúncias de rachadinha envolvendo gabinetes e assessores ligados a seus filhos — em especial o então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro — motivaram investigações, quebras de sigilo e relatórios de órgãos de controle sobre movimentações financeiras atípicas.
Naquele período, a postura do Palácio do Planalto foi marcada pela tentativa de blindagem política: críticas frequentes às investigações, ataques a órgãos de controle e um discurso de perseguição direcionado a autoridades responsáveis pelos inquéritos. A narrativa predominante era a de vitimização e confronto com quem apurava os fatos.
No caso atual, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou publicamente um tom distinto. Questionado sobre a situação de Lulinha, Lula declarou que não fará “defesa prévia” do filho e afirmou que, “se tiver alguma coisa”, ele deverá “pagar o preço”. A frase, ainda que não interfira diretamente no andamento das investigações, foi interpretada por aliados e adversários como um gesto político calculado em direção ao discurso de respeito às instituições e de ausência de blindagem automática.
Esse contraste de posturas pode ganhar relevância no debate eleitoral. De um lado, a oposição tenta enquadrar o caso da CPMI do INSS como mais um capítulo de suspeitas envolvendo familiares de quem ocupa o Planalto. De outro, o governo busca sustentar a mensagem de que não há intocáveis, nem mesmo dentro da família presidencial, e que as investigações devem seguir o curso normal.
Especialistas em ciência política apontam que, independentemente do desfecho jurídico, o desgaste de imagem é imediato quando o núcleo familiar de um presidente entra na linha de investigação. O simples fato de a discussão ter escalado ao ponto de justificar a quebra de sigilo do filho do chefe do Executivo já produz efeitos sobre a percepção pública do governo, do Congresso e das instituições de controle.
Se, por um lado, a CPMI do INSS nasceu com foco em proteger aposentados e pensionistas de descontos indevidos, por outro, ela se transformou em um palco onde se cruzam interesses eleitorais, disputas partidárias e o debate sobre a responsabilidade de famílias políticas no uso — e no abuso — de recursos ligados ao Estado.
Em ano de campanha, a lembrança dos casos de rachadinha e a nova polêmica envolvendo a suposta “mesada” para Lulinha alimentam uma narrativa de continuidade: filhos de presidentes sob suspeita, enquanto o eleitor e o contribuinte observam de fora. A diferença, agora, está na forma como cada líder tenta se posicionar diante do mesmo tipo de tempestade.






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