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“O Preço da Magreza: O Que Está Por Trás das Mortes Ligadas às Canetas Emagrecedoras no Brasil?”

“Brasil já registrou mortes suspeitas e dezenas de casos graves associados a canetas emagrecedoras. Por trás dos números, uma mistura perigosa de obsessão pelo corpo perfeito, automedicação e indústria bilionária.”


O Brasil já registrou seis mortes suspeitas e 145 casos de pancreatite possivelmente ligados ao uso das chamadas “canetas emagrecedoras”, em um período de alguns anos, segundo dados oficiais informados por autoridades de saúde.

Os números, que ganharam destaque em reportagens nacionais, acenderam um alerta sobre os riscos de um produto que, em pouco tempo, saiu dos consultórios e ganhou espaço em redes sociais, grupos de WhatsApp e conversas do dia a dia.


Por trás dessas estatísticas, porém, existe uma realidade mais complexa: a pressão por emagrecer a qualquer custo, a automedicação, o uso estético sem indicação adequada e a força de uma indústria que movimenta bilhões de reais explorando inseguranças relacionadas ao corpo.


De medicamento sério a “atalho” para emagrecer

As chamadas canetas emagrecedoras não surgiram como produtos de beleza.

Em muitos casos, elas utilizam substâncias originalmente desenvolvidas para o tratamento de doenças como o diabetes tipo 2, atuando na regulação da glicose e na sensação de saciedade.


Ao perceberem que pacientes em tratamento também apresentavam perda de peso significativa, as empresas farmacêuticas passaram a investir em estudos e campanhas voltadas para o controle da obesidade. Em contextos específicos, com acompanhamento médico rigoroso e avaliação individualizada, esses medicamentos podem ser ferramentas importantes no manejo de quadros de obesidade e doenças associadas.


O problema começa quando um recurso médico complexo passa a ser tratado como “caneta milagrosa” para emagrecimento rápido, muitas vezes sem avaliação clínica adequada, sem exames prévios e sem transparência sobre riscos e limitações.


Automedicação, uso estético e pressão por resultados rápidos

Profissionais da saúde têm alertado para um fenômeno preocupante: o crescente uso das canetas emagrecedoras por pessoas que não se enquadram nos critérios médicos clássicos para esse tipo de tratamento, mas que buscam principalmente fins estéticos.


Relatos se multiplicam de pacientes que:


Conseguem receitas com facilidade, muitas vezes sem acompanhamento contínuo;

Compram o produto por indicação de amigos, influenciadores digitais ou grupos de mensagens;

Aumentam ou reduzem doses por conta própria, sem orientação.

Nesse cenário, a automedicação encontra um terreno fértil: a cultura do “projeto verão”, o culto ao corpo nas redes sociais e a ideia de que o valor de uma pessoa está diretamente ligado ao peso que aparece na balança.


Especialistas lembram que medicamentos que alteram o metabolismo, o apetite e o funcionamento de órgãos internos nunca deveriam ser usados sem acompanhamento médico próximo, uma vez que podem agravar condições pré-existentes, interagir com outros remédios ou desencadear efeitos colaterais sérios.


Pancreatite e outros riscos: o que preocupa os médicos

Entre os efeitos adversos que mais preocupam, está a pancreatite – inflamação do pâncreas, órgão essencial para a digestão e o controle da glicose no sangue.

Quadros de pancreatite podem variar de leves a graves, exigindo, em muitos casos, internação hospitalar e monitoramento intensivo.


Os casos suspeitos de pancreatite e mortes associados ao uso das canetas emagrecedoras ainda são objeto de investigação detalhada para determinar com precisão o papel do medicamento em cada situação. Fatores como histórico de saúde, outras doenças, uso simultâneo de remédios e possíveis doses inadequadas também entram na análise.


Mesmo assim, a relação temporal entre o uso das canetas e o surgimento de sintomas graves levou autoridades a reforçarem o alerta: trata-se de um medicamento que não pode ser banalizado.


Médicos recomendam que qualquer pessoa que esteja fazendo uso desse tipo de fármaco fique atenta a sinais como dor abdominal intensa, náuseas persistentes, vômitos e mal-estar súbito, buscando atendimento urgente se esses sintomas aparecerem.


A indústria do emagrecimento e a exploração da insegurança

A discussão sobre as canetas emagrecedoras não pode ser separada de um contexto maior: o da indústria do emagrecimento.

Por décadas, produtos de todos os tipos — pílulas, chás, shakes, dietas da moda — têm sido vendidos com a promessa de resultados rápidos, muitas vezes sem base científica sólida e com riscos pouco divulgados.


As canetas, por terem origem em medicamentos aprovados e estudados, acabam, para muitos, carregando uma aura de segurança absoluta. No entanto, isso não significa que possam ser usadas sem critério.


Em paralelo, campanhas publicitárias, posts patrocinados e depoimentos de celebridades e influenciadores acabam reforçando a imagem de que a caneta é um “atalho” seguro para o corpo ideal. Pouco se fala, entretanto, sobre:


Quem realmente se beneficia financeiramente com esse consumo em massa;

As limitações do tratamento;

A necessidade de mudanças de estilo de vida e acompanhamento multidisciplinar (nutricional, psicológico, endocrinológico);

Pessoas que tiveram efeitos adversos importantes.

Entre saúde e padrão estético: uma fronteira cada vez mais confusa

Um dos pontos mais delicados nessa discussão é a fronteira entre tratar uma condição de saúde e atender a uma cobrança estética.


Obesidade é, de fato, uma doença complexa, associada a aumento do risco de problemas cardiovasculares, metabólicos e articulares, entre outros. Em muitos casos, intervenções médicas são necessárias e legítimas — incluindo medicamentos, cirurgias bariátricas e tratamentos combinados.


O que preocupa especialistas é quando:


Pessoas sem indicação clínica clara passam a buscar remédios de uso restrito apenas por insatisfação estética;

A decisão de usar ou não o medicamento é tomada mais por pressão social e influência das redes do que por avaliação médica criteriosa;

A saúde mental, a relação com o próprio corpo e a construção da autoestima são ignoradas no processo.

Para psicólogos e psiquiatras que atuam com transtornos alimentares e imagem corporal, o uso indiscriminado de ferramentas farmacológicas para emagrecer pode acentuar quadros de ansiedade, depressão, distorção de autoimagem e sensação de fracasso quando o resultado não é o esperado.


Informação, acompanhamento e limites: o que dizem os especialistas

Profissionais da área de saúde são unânimes em alguns pontos centrais:


Canetas emagrecedoras não são solução mágica: são, no máximo, uma ferramenta dentro de um plano mais amplo de cuidado, que inclui alimentação, acompanhamento médico e, muitas vezes, suporte psicológico.

Uso sempre com prescrição e acompanhamento: é fundamental que o paciente seja avaliado por um médico habilitado, que conheça seu histórico, peça exames, acompanhe efeitos ao longo do tempo e saiba quando interromper ou ajustar o tratamento.

Cada organismo reage de um jeito: o que funciona sem grandes efeitos adversos em uma pessoa pode ser extremamente perigoso em outra, especialmente em casos de doenças pré-existentes ou uso combinado com outros remédios.

Desconfiar de promessas milagrosas: qualquer promessa de emagrecimento rápido e “sem risco” merece ser vista com cautela.

A pergunta que fica

Os casos de mortes suspeitas e de pancreatite relacionados às canetas emagrecedoras levantam, mais do que uma polêmica sobre um medicamento específico, uma reflexão mais ampla sobre a sociedade em que vivemos.


Em que momento emagrecer virou uma urgência tão grande a ponto de muitas pessoas aceitarem praticamente qualquer risco?

Qual é o papel das redes sociais, da mídia, da família e do próprio sistema de saúde na construção dessa corrida pela magreza?


Enquanto autoridades seguem investigando cada caso e atualizando orientações sobre o uso desses medicamentos, fica um recado difícil de ignorar: buscar informação de qualidade, conversar abertamente com profissionais de saúde, desconfiar de atalhos fáceis e, principalmente, repensar a relação com o próprio corpo.


Porque, em muitos casos, o preço da magreza pode ser mais alto do que parece na propaganda.


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